A profissional de energia e fundadora da Rede Africana da Juventude na Energia (AYEN), Lydia Kapangila, defendeu uma transformação profunda das políticas e da cultura organizacional do sector energético africano. Num artigo de opinião publicado na Bantu Gazette, a activista argumenta que o verdadeiro empoderamento feminino depende de medidas concretas de inclusão, liderança e desenvolvimento de competências, e não apenas de discursos sobre diversidade.
Segundo Kapangila, as mulheres continuam sub-representadas em praticamente toda a cadeia de valor da indústria energética em África, desde funções técnicas e operacionais até cargos de liderança, acesso ao financiamento e oportunidades de progressão na carreira. Para a líder, esta realidade continua a ser alimentada por preconceitos e percepções que frequentemente levam à subvalorização das competências femininas.
A autora sustenta que muitas profissionais apenas conseguem ver o seu trabalho reconhecido depois de demonstrarem resultados muito acima das expectativas, um fenómeno que considera sintomático de uma cultura organizacional ainda marcada por estereótipos de género.
Baseando-se na sua própria experiência profissional, Kapangila relata que também enfrentou situações em que as suas ideias foram desvalorizadas ou ignoradas, desafios que, afirma, reforçaram a sua determinação em demonstrar que as mulheres possuem competências técnicas e estratégicas indispensáveis para o desenvolvimento do sector energético africano.
Foi precisamente dessa constatação que nasceu a AYEN, organização criada para oferecer programas de mentoria, formação, desenvolvimento de competências e criação de redes de apoio para jovens profissionais, especialmente mulheres, que frequentemente trabalham isoladas em departamentos ou projectos dominados por homens. A iniciativa procura reduzir esse isolamento e criar oportunidades de crescimento profissional através da colaboração entre especialistas de diferentes países africanos.
No artigo, Kapangila reconhece que algumas empresas começam a adoptar práticas mais inclusivas, citando exemplos de organizações que passaram a recrutar e acompanhar mais mulheres em posições técnicas e de liderança. Ainda assim, considera que estes avanços permanecem pontuais e insuficientes para alterar estruturalmente o panorama do sector.
Entre os principais obstáculos que persistem, destaca as dificuldades de acesso a promoções, financiamento para projectos liderados por mulheres e condições de trabalho adaptadas às necessidades femininas, sobretudo em operações de campo. Apesar de reconhecer que o debate sobre inclusão ganhou maior visibilidade nos últimos anos, defende que ainda falta transformar compromissos institucionais em mecanismos efectivos de responsabilização e resultados mensuráveis.
O futuro da indústria energética africana, segundo esta, dependerá da capacidade de governos, empresas e organizações criarem ambientes verdadeiramente inclusivos. Nesse sentido, propõe a implementação de programas estruturados de mentoria, critérios transparentes para progressão na carreira, políticas laborais mais flexíveis e metas concretas de diversidade que possam ser acompanhadas e avaliadas ao longo do tempo.
Na sua visão, investir na participação feminina não representa apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia para fortalecer a competitividade do sector energético africano e acelerar uma transição energética mais sustentável, inovadora e inclusiva. Kapangila conclui que, quando as mulheres dispõem das mesmas oportunidades para desenvolver o seu potencial, toda a indústria beneficia, contribuindo para um futuro energético mais resiliente para o continente africano.