Quando falamos de transição energética, pensamos frequentemente em centrais solares, parques eólicos, redes eléctricas modernas, industrialização verde ou mobilidade eléctrica. No entanto, a transição energética é muito mais do que uma transformação tecnológica. É também um veículo para promover a justiça social, melhorar a qualidade de vida das pessoas e assegurar que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades para beneficiar e participar na construção do futuro energético.
O acesso à energia moderna significa mais tempo para estudar, trabalhar ou desenvolver actividades produtivas, o que tem um impacto directo no acesso a melhores condições dos serviços de saúde, mais segurança, oportunidades de emprego e, em geral, melhores condições de vida.
Neste âmbito, a transição energética impacta significativamente na vida das mulheres através do acesso a soluções de cozinha limpa, pois reduz a exposição ao fumo doméstico, uma das principais causas de doenças respiratórias entre mulheres e crianças. Quando a energia chega às comunidades, os benefícios fazem-se sentir em toda a sociedade, mas têm frequentemente um impacto particularmente transformador na vida das mulheres.
Por essa razão, as mulheres não devem ser vistas apenas como beneficiárias da transição energética. Devem também ter a oportunidade de participar activamente na sua construção.
Contudo, os dados mostram que ainda existem desafios importantes. Segundo o estudo publicado pela UNESCO em 2024, as mulheres representam apenas 35% dos formados em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) a nível mundial. Nas áreas mais directamente ligadas ao sector energético, a representação é ainda menor, correspondendo a cerca de 28% dos formados em Engenharia e 30% dos formados em Tecnologias de Informação e Comunicação.
Em África, a situação apresenta sinais encorajadores. De acordo com uma análise da McKinsey citada pela Ecofin Agency, as mulheres representam cerca de 47% dos diplomados em áreas STEM no continente, uma das percentagens mais elevadas do mundo. No entanto, esta participação não se reflecte plenamente no mercado de trabalho, onde menos de 30% das posições de liderança são ocupadas por mulheres.
Moçambique enfrenta desafios semelhantes. À medida que o país avança na implementação da Estratégia de Transição Energética e promove o aumento da geração renovável, a modernização da rede eléctrica nacional, a mineração sustentável ou as fontes de mobilidade alternativas aos combustíveis tradicionais, crescerá também a procura por profissionais qualificados.
Engenheiros, técnicos, gestores de projecto, especialistas digitais, investigadores e empreendedores terão um papel central nesta transformação.
Garantir que raparigas e rapazes tenham acesso às mesmas oportunidades de educação, formação técnica e desenvolvimento profissional não é apenas uma questão de justiça social. É também uma condição para o desenvolvimento económico e para a competitividade do país. Nenhuma sociedade consegue atingir todo o seu potencial quando parte do seu talento permanece subaproveitado.
Uma transição energética verdadeiramente justa deve assegurar que os seus benefícios cheguem a todos e que todas as pessoas possam participar na sua construção. O futuro energético de Moçambique será mais forte, mais inovador e mais inclusivo se mulheres e homens tiverem as mesmas oportunidades para estudar, trabalhar, liderar e contribuir para a transformação energética do país.